27 dezembro 2006
O Labirinto do Fauno - Guillermo Del Toro

Eu poderia falar sobre a mitologia e a lenda do Fauno ou sobre a história espanhola e a Guerra Civil que atingiu o país. Poderia falar também da vontade humana de deixar para trás tudo que nos desagrada para ter uma vida melhor em qualquer outro lugar, mas vou deixar tudo isso de lado por que falar disso seria uma desonra ao filme e ao seu diretor. O Labirinto do Fauno é maior que tudo isso, é uma ode à imaginação e a tudo aquilo que pode nos salvar de sermos apenas seres insignificantes diante do maravilhoso mundo que nos cerca. Ele é a união de tudo que eu disse no começo e faz isso somente compondo seus personagens.
Guillermo Del Toro consegue a proeza de contar uma história simplesmente criando seus personagens. Todos eles representam o poder dos sonhos e da imaginação apenas interagindo com a realidade de uma forma ou de outra. Começaremos com Ofélia (Ivana Baquero), a menina criada na cidade que acompanha a mãe para o campo, já que essa se casou com um capitão (Sergi López) que luta contra rebeldes na Espanha após a Guerra Civil. Ofélia adora contos de fadas, e os inventa e os conta de uma forma tão cativante que às vezes nos esquecemos que contos normalmente são metáforas para a realidade. Quando encontra uma criatura mágica pela primeira vez podemos perceber como é tamanha a imaginação da garota, que ela não será surpreendida por nada e enfrentará o que for necessário para conquistar o que quiser.
Sendo exatamente o oposto dela, o Capitão Vidal não apresenta nenhuma das qualidades de Ofélia, frio e calculista ele não acredita na imaginação, não acredita que um homem poderia viver de seus sonhos e por isso vive de destruir o dos outros, sendo que o único sonho que ele tem e o que mais o motiva é exatamente aquele que ele acredita exorcizar o fantasma de seu pai (mas que ele nunca admitiria pesar sobre ele). O Capitão tem uma força enorme sobre os outros personagens exatamente por isso, ninguém tem medo dele, e normalmente respondem às suas ordens de maneira ferina quando essas não são boas, mas apesar disso todos os personagens temem que seus sonhos sejam destruídos por aquele homem frio fazendo com que eles reajam a ele não com medo, mas sim com cautela.Por fim temos os rebeldes, alguns infiltrados no posto do Capitão, outros escondidos de seu exército esse homens tem seus sonhos e sua imaginação como armas contra a opressão, logo tudo que eles fazem é questionável, inclusive a vontade de destruir o Capitão (no filme quando alguém menciona isso a um dos rebeldes o outro se questiona se matar o Capitão não iria apenas mudar o nome do inimigo). Isso mostra a fragilidade da relação daqueles que sonham e imaginam contra a força daqueles que de tão frios esmagam os sonhos daqueles à sua volta.
Isso por fim nos leva ao Fauno (Doug Jones), que é exatamente onde a imaginação reside. Ao longo do filme, toda vez que ele aparece ou leva a personagem principal ao mundo dos contos de fadas percebemos a força que esse mundo tem. Uma força tão grande que é capaz de acionar os sonhos de todos aqueles que se sentiam oprimidos, seja diretamente ou indiretamente. Se suas ações querem o bem ou o mal é dever descobrir ao longo da projeção, afinal, o Fauno é conhecido por seus truques, mas que sua força é cativante e poderosa isso é inegável, como se pode perceber pela cena do Capitão e sua repressão com a mandrágora - símbolo da imaginação e dos sonhos (contar mais seria um exagero e um spoiler) - que para os olhos atentos desencadeia a maioria dos eventos do filme. Sem contar que a sua forma na película, além de bela como em um conto de fadas, consegue assustar pela forma diferente que é concebida.Admito agora que passei por todos os pontos que prometi não visitar no começo dessa resenha, mas tive um bom motivo: se eu disse antes que passar por aqueles três pontos ia parecer arrogância e que não pretendia abordar o filme dessa forma, não sabia que realmente ia aborda-los até perceber que os três já estavam no texto.
Mas sobre uma coisa eu estava certo, falar somente sobre os três pontos sem enquadrá-los no filme seria uma desonra ao filme e ao diretor.Ps: Quem merece as maiores honras é Doug Jones, que faz o Fauno e o Homem Pálido. Além de não falar uma palavra em espanhol diante de um elenco inteiro natural dessa língua, ainda tinha que saber suas falas na língua e as de Ivana Baquero para que pudesse interagir com a atriz e dizer as suas no tempo certo, tudo isso com um agravante: com a maquiagem do Fauno ele praticamente não ouvia nada. Todo esse caso por que Guillermo Del Toro o queria no elenco. Boa escolha.
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13 dezembro 2006
Adrenalina - Mark Neveldine e Brian Taylor

Até certo tempo as histórias em quadrinhos só conheciam dois tipos de heróis; aqueles com super-poderes e alguma fraqueza facilmente explorável pelos vilões (super-homem), ou aqueles que não tinham poderes e apanhavam a história inteira antes de dar cabo nos bandidos (Batman). Foi então que na década de oitenta chegou uma história que mudou tudo. Ela se chamava Watchmen, foi concebida por um dos maiores escritores de quadrinhos e trazia em seu enredo heróis sem poderes e com poderes, mas que sofriam conflitos tão humanos quanto era possível, o que cativou os leitores de tal forma que a indústria teve um dos seus maiores choques. A partir daí todos começaram a copiar (tanto bem quanto mal) esse estilo de se compor esses contos e seus personagens, mas o estrago estava feito e os quadrinhos nunca mais conseguiram se recompor, mesmo quando o próprio Alan Moore escreveu a história de um herói cheio de poderes e indestrutível, todos perceberam que o dano era maior que o remediável.
Conto isso para explicar por que Adrenalina é um bom filme. Estamos em uma época que fizeram com os filmes o mesmo que fizeram com os quadrinhos, mas de uma maneira mais amadora. Hoje em dia não há um herói que não tem conflitos internos e ao longo de uma projeção, mesmo que seja um filme de ação ininterrupta sempre veremos nosso herói “passando por um momento de grande angustia pessoal” (aposto que essas palavras podem ser encontradas exatamente dessa forma em qualquer roteiro de ação).Desde a década de oitenta (sempre ela) não vemos um filme como é esse Adrenalina, onde um personagem sem escrúpulos passa o filme inteiro, correndo lutando e matando sem nenhuma explicação, a não ser salvar a própria pele.
Agora vem o ponto da mudança, aquilo que se perdeu com o tempo, isso não acontece para mostrar como um personagem deve ser, não é para mostrar o sadismo do nosso anti-herói, pelo contrário, tudo que é feito no filme tem tanta pretensão de mostrar como o personagem é psicologicamente quanto um jogo de Tetris tem de lhe mostrar os desejos e anseios dos quadrados coloridos.
Isso que falta nos filmes de hoje: um personagem que vê alguém morrer e nem liga porque ele não está correndo o filme inteiro pra isso, e se ele for se importar teremos mais 1 hora de projeção, no mínimo. Ele não quer saber quem ferrou com ele e porque, ele quer se salvar e matar o único que ele sabe que tem culpa, e se ele pegar mais o cara que mandou o “bandido” atrás dele é apenas bônus.
Sabemos que vai ser assim, certo? Tem que ser assim, é um filme de ação, queremos isso. Se ele tem escrúpulos ou é um idiota completo é problema dele, contanto que eu veja pancadaria comendo solta, mulheres bonitas (afinal esse é um filme pra homens) e uma boa dose de honestidade , já que sabemos que filmes assim não são para ser levados a sério, e o final da projeção entrega isso de bandeja. Vá ver esse filme, ria com o ridículo que ele passa e com a cara-de-pau do “mocinho”. Depois saía do cinema com o coração cheio de Adrenalina, pois assim você saberá que o filme foi bom, afinal estávamos correndo com o cara dentro daquela sala, mesmo não concordando com o que ele fazia.Logo, saiba que filmes assim são como Alan Moore mostrando que dá para se criar um herói perfeito num mundo que acha que o melhor é um herói que tem sentimentos, é um sopro de ar fresco, mas que pode se perder no meio de tanta “tendência”. Mas não vá acreditando que você irá encontrar algo com a profundidade e a sutileza de Alan Moore, isso ia ser pedir demais.
(Em tempo, a trama é tão simples que se torna óbvio tudo que ocorre no filme e de tão acostumados que estamos com o jeito de se fazer cinema que pode ser que se pergunte no meio da projeção: “Por que não ir atrás de tal pessoa ou tal coisa?” Acredite é melhor do jeito que o filme é. Além disso, não irei explicar a trama, pois ela só está ali para dar a partida no filme e se torna inútil em 3 minutos ou menos).
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