25 março 2008

 

PROJETO GRINDHOUSE - Planeta Terror - Robert Rodrigues




Quem, sinceramente, acredita que quando você faz uma coisa por que gosta, e não por que foi obrigado, ela sai muito boa, não só para você, mas para as pessoas que apreciam aquilo que você faz? É assim que posso descrever o projeto Grindhouse, uma parceira entre Robert Rodrigues e Quentin Tarantino que produziu dois filmes (do qual irei falar apenas de um nesse momento), e que ambos os filmes, até o momento foram muito bem comentados por todos aqueles que gostam de cinema e sabendo que eles fizeram o projeto simplesmente por gostar de cinema, acabaram por comprovar o que eu disse logo acima. Em tempo, devo admitir que somente vi o filme Planeta Terror, (o filme de Robert Rodrigues) então irei nessa primeira parte apenas falar sobre ele. Assim que assistir o segundo (Prova de Morte) irei comentá-lo também.


Antes de começar a resenha, devo explicar um pouco sobre o Projeto Grindhouse e sua origem. Grindhouse é o nome dado a salas de cinema nos Estados Unidos que passam filmes de terror B (trash). Normalmente com sessão dupla e muito famosas nos anos 70 e 80, essas salas fizeram muito sucesso com sessões de filmes que eram repetidos a exaustão. Quando se reuniram, Quentin Tarantino e Robert Rodrigues decidiram fazer uma homenagem a esses filmes, criando um filme cada um, explorando o máximo do trash. Esses filmes seguiriam o estilo Grindhouse no máximo, com a imagem gasta e até pedaços dos filmes faltando (afinal eles eram passados a exaustão, filmes com até dez ou mais anos) e incluindo entre uma sessão e outra trailers falsos feitos por diretores convidados. Robert Rodrigues fez Planeta Terror, uma homenagem aos filmes de zumbis, Quentin Tarantino fez Prova de Morte, uma homenagem aos Road Movies de terror.

Planeta Terror é um filme complicado de se assistir. Ou você está preparado para a homenagem que ele pretende fazer, ou você achará um filme nojento e ridículo demais. Eu admito que ele é bem nojento, com pus, sangue, zumbis canibais, membros despedaçados, gosmas e tudo mais, mas ridículo ele não é e tem um bom motivo, afinal, não é só por que ele é uma homenagem que ele tem que ser relaxado e descuidado. Todos os efeitos são bem trabalhados, sejam os de saturação e desgaste da imagem, seja dos zumbis ou seja até o som e a trilha (que utiliza até elementos de A Coisa e Fuga de Nova Iorque, ambos clássicos do terror de John Carpenter, o rei desse tipo de filme). A direção é impecável para o que ela se propõe, com os mesmos estilos de montagem e edição (que também é feita por Robert Rodrigues como em todos os seus filmes) que imitam os filmes da época até o uso das cores e o enquadramento dos personagens.

Agora, sem sombra de dúvida o melhor de Planeta Terror são as atuações. O filme é um composto por um roteiro sem nexo de uma idéia bem batida, suas falas são, quando muito, piegas e clichês. Ele pede e implora para não ser levado a sério, então na mais justo que ninguém leve a sério mesmo. Exatamente o que os atores fazem. Todos eles, sem exceção interpretam seus personagens de maneira cômica e caricata. Isso sem criar estereótipos ou fazer atuações exageradas. Josh Brolin, por exemplo, interpreta Block, um médico que faz o turno da meia noite do plantão e odeia quando tem muitos corpos pra cuidar. Ele fica o tempo todo medindo sua própria pressão e com um termômetro na boca pra saber quando está estressado. Michael Biehn (Kyle, o cara que vem salvar Sarah Connor em o Exterminador do Futuro – achei muito bom ver ele nesse filme) interpreta o Xerife, que quer ajudar a todos, cuidar da cidade e salvar o dia, mas ao mesmo tempo fica aporrinhando e ferrando o irmão (Jeff Fahey) para roubar uma receita premiada. Freddy Rodríguez como o famoso estranho que é ótimo lutando e que tem um passado misterioso (uma das melhores idéias do filme é em torno da revelação desse passado).

Todos esses atores (sem exceão) criam uma história, algo que nos ajuda a entender os personagens, mas tenho que fazer duas menções especiais, uma a Naveen Andrews (Lost) que interpreta o Doutor Abby e outra a Rose McGowan que interpreta Cherry, a protagonista. Ele é um cientista que cria uma arma química poderosa que causa todo o estrago do filme, e apesar de seu forte sotaque, ele nunca se mostra ou diz do Oriente Médio, ele é um americano qualquer, mesmo com sotaque, o que quebra o estereotipo de terrorista e cria um conceito ambíguo para o seu propósito. Cherry por outro lado é uma dançarina exótica (erótica) que pede demissão para se tornar comediante. O mais engraçado é que no começo achamos que é uma piada, já que ela diz que ela vai fazer isso pois todos dizem que ela é hilária, só que todos dizem isso somente quando ela fala sério, o que faz da idéia de ser comediante a piada em si. No filme inteiro percebemos o desenvolvimento e a mudança do personagem, não só nela como em todos os outros, e o incrível é que isso acontece pelas interpretações, já que o roteiro é uma seqüência de clichês e frases ridículas, tanto que chegam ser hilárias. Na verdade só realmente percebemos isso com dois personagens mais drasticamente, o de Bruce Willis como oficial do exercito (ele realmente não estava inspirado) e o de Fergie como a primeira vitima (o que realmente me deixou feliz, pois eu odeio muito ela).

Portanto, deixo bem claro agora, se você entrar no espírito do filme é uma viagem sem volta, talvez sua mãe não goste dele ou aquele seu vizinho sensível, mas a verdade é que ele é apenas uma alegoria, uma homenagem, um recado a todos aqueles milhares de filmes comerciais que estão por ai (cof cof Transformers cof cof) e o recado é: Eu faço filmes por que gosto, bons ou ruins eu gosto deles e tenho meu público. E quero ver o seu marketing massivo ganhar da minha propaganda boca a boca.

By pato

Ps: Não assistam esse filme nem pouco antes ou pouco depois de alguma refeição. Se até a cena com o Quentin Trantino você não tiver passado mal, nessa você vai passar.

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17 março 2008

 

Monty Python em Busca do Cálice Sagrado - Terry Gilliam and Terry Jones




Existem clássicos e cults, e existem Cults Clássicos. Um site de filme que tem como premissa mostrar o que os editores em suas humildes opiniões acreditam ser os melhores (ou às vezes piores) filmes que eles já viram na vida não pode deixar de falar de Monty Python, seja pra falar bem ou mal; e vou ter que dizer agora, eu só vou falar bem.

O filme é demais, tem um humor tão absurdo e grotesco que muitas vezes você ainda está coçando a cabeça por causa de uma piada quando outra já tem atinge como um raio. Algumas piadas são sutis e outras são bem escancaradas, umas apelam para o Non-sense (marca registrada do grupo) outras apelam para sátiras a todas as áreas envolvidas na história.

Para entender que áreas são essas deixe explicar a história. Rei Arthur “cavalga” com seu fiel escudeiro pelas florestas inglesas a procura de homens para integrarem seu grupo. Depois de reunir os cavaleiros da Távola Redonda eles vão para o castelo do Rei (em uma demonstração de que a corte do Rei não era bem o que parecia e nem os cavaleiros) mas lá Deus aparece e diz que eles tem que procurar o Cálice Sagrado e trazer para os Ingleses.

Daí as sátiras vão desde humor contra a Igreja, as religiões, os Franceses (eternos inimigos dos Ingleses), a Idade Média e até a Policia Britânica. Devemos salientar também que as sátiras não necessariamente fazem sentido, como por exemplo o Casal no começo do filme que não reconhece o Rei Arthur como seu rei já que eles não votaram nele, e quando ele diz que não se votam em reis e que ele foi escolhido como Rei quando uma Dama saiu do lago e entregou a espada a ele, a senhora o interrompe e diz que mulheres que saem de lagos distribuindo espadas não são base para um governo você fica louco com a retórica da camponesa.

Não pense que o filme é só sátira também, eles sabem ser bem bobos como a parte da ponte ou bem loucos como a parte da bruxa ou a parte do Cavaleiro Negro. Nesse momento eu tenho que me desculpar por não contar mais, mas cada piada é única e admito que ela ficam bem melhores quando contadas por eles, por isso digo que paro de falar das piadas e peço que confie na minha palavra, são muito boas.

Com um elenco formado por todos os integrantes do programa de TV (Graham Chapman, John Cleese, Eric Idle, Terry Gilliam, Terry Jones e Michael Palin, que viriam a fazer outros filmes também) o filme permanece original, engraçado e inteligente mesmo com quase 35 anos de existência.

Resumo: Assistam, confiem em mim, ou pelo menos vejam o filme para poder dizer "não gosto".

By Pato

PS: Alguém sabe o que é Schauberry?

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11 março 2008

 

Brilho eterno de uma mente sem lembranças - Michel Gondry




Ao longo da história do cinema muitas histórias de amor foram contadas das mais diversas formas. Com dramas e comédias, tragédias e casos do cotidiano. Mas não são numerosos os filmes de amor. Veja a diferença entre contar uma história de amor e retratar o amor nas suas diferentes formas e estágios. Brilho eterno é um filme de amor.

Mais uma vez o brilhante Charlie Kaufman constrói maravilhosamente uma história totalmente inusitada e inesperada, cheia de emoção, profundidade e distorcida realidade. O autor de "Quero ser John Malkovich" e "Adaptação" acerta na mão e conta a história de Joel Barish (Jim Carey), um homem desajustado e tímido que descobre que a ex-namorada, Clementine Kruczynski (Kate Winslet) fez um procedimento que apagou todas as memórias que ela tinha de Joel. Inconformado, ele decide apagar Clementine também, mas acaba se arrependendo no meio do procedimento e foge deseperadamente numa viagem dentro de sua própria mente para tentar salvar Clementine do esquecimento.

Por mais doloroso que seja terminar um relacionamento, muitas vezes simplesmente não conseguimos nos desfazer das coisas boas que sentimos ao lado daquela pessoa. São sentimentos que nos fizeram sentir completos naquele momento e é isso que Joel tentar guardar. Ele amou Clementine e isso está salvo em sua memória. Tempo nenhum pode mudar o fato de que ele se sentiu daquela forma e ainda sente, por mais que ele tente dizer o contrário.

O amor pode doer e Jim Carey toma o papel com tanta intensidade que nos faz esquecer de filmes como o Maskara e Ace Ventura, nos permitindo viver as dores e prazeres de Joel e seu amor. Ela já havia dado provas de que podia fazer dramas tão bem quanto fazia comédias físicas em "O show de Truman" e "Cine Majestic". Nesse filme vemos um Jim muito expressivo sem fazer caretas. Sua atuação é tocante e certamente trará algumas lágrimas aos olhos dos mais duros. Kate Winslet também desempenha seu papel com competência e nos permite amá-la e odiá-la como Joel faz. Ela sempre é ótima, então não vou me estender nos comentários. O filme conta também com ilustres coadjuvantes como Eliah "Frodo" Woods, um desengonçado Mark Ruffalo e até Kirsten "Mary Jane" Dunst numa suas melhores performances.

Com baixo orçamento, os atores se dispuseram trabalhar praticamente de graça para Michel Gondry, famoso diretor de clipes (vários da Bjork) que depois nos traria o bom "Science of Sleep" e o inédito "Be kind rewind". Gondry evita a computação grafica e prefere trabalhar com cenários complexos, o que facilita o trabalho do ator em um filme surreal como esse. A temática dos jogos da mente e da psicologia, marcante em Brilho eterno, se tornaram frequentes nos trabalhos do diretor.

Por mais maluca que a idéia pareça, assim como fez em "Quero ser John Malkovich", Kaufman torna plausível uma clínica que apaga memórias e diálogos absurdos se encaixam perfeitamente.

Um filme excelente para ser visto mais de uma vez, mesmo que algumas vezes tenhamos que ver sozinhos.

O espírito de todo o filme está na imagem de Joel deitado sobre o gelo com Clementine, a câmera se afasta e vemos um enorme trincado sobre o branco mostrando que às vezes o momento imperfeito, o relacionamento imperfeito, é aquilo que você precisa, que te faz feliz. Isso fica claro quando Joel diz "Eu poderia morrer agora, Clem. Eu estou simplesmente... feliz. Eu nunca senti isso antes. Eu estou exatamente onde eu quero estar".


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Assassinato por Encomenda - Michael Ritchie




Dentre os melhores filmes que ninguém viu existe uma sub-categoria que foi criada a partir do fato de que dois estilos de filmes não são levados a sério com o tempo. São dois estilos de filmes que praticamente nunca viram cults e são esquecidos pelos cinéfilos, somente com raras exceções entre seus títulos. Esses estilos são as comédias e os filmes de ação. A maioria dos romances, suspenses e dramas sobrevivem eras e eras, sendo reconhecidos como sinônimos de grandiosidade, O Poderoso Chefão, 2001, O Silencio dos Inocentes etc. Mas, pergunte por comédias e você ficará sempre com as mesmas respostas, “Quanto mais quente melhor” ou “Harry e Sally”. Se as respostas mudam, são tão dispares que não conseguiriam fazer uma pesquisa sobre isso. Os outros estilos não, as respostas obedecem padrões bem definidos e todos sabem o que significa um grande filme.
Nesse conceito, um grande filme que ninguém viu pode também ser um grande filme que é desconhecido por nossa geração, Assassinato por encomenda.

Vamos começar falando do Chevy Chase, o protagonista Fletch, ele era um grande comediante como só a década de 80 produziu. Rápido e sempre com grande carisma ele é capaz de disparar diversas piadas por segundo, sem perder o pique e o timing da comédia (algo fundamental para esse gênero). Chevy Chase ainda é um exemplo de comediante nascido de skets e criado pelo programa Saturday Night Live, o que normalmente significa que o ator está bem acompanhado nos filmes. Esse não é o caso com ele, ele segura o filme sozinho, e se tem bons coadjuvantes eles somente enriquecem a história ao invés de deixá-lo apagado.

O filme então mostra seu outro lado, como a concorrente ao Oscar Ellen Page estava amparada por um roteiro ágil de grandes frases de efeito, Chevy Chase está acompanhado por diversas frases que todos adoraríamos usar no dia-a-dia. É claro que nunca estaremos nas mesmas situações que ele, mas só de imaginar você dizendo para um policial, “O meu nome é Fletch, Fletcher F. Fletch” ou enquanto tenta parar um carro roubado de um adolescente, ele pergunta se Fletch é um tira ele responde “Sim, mas eu nem sei se roubar um carro é um crime ainda. As leis mudaram muito”. São frases rápidas que pegam todos os interlocutores desprevenidos e causam todo o tipo de reação. O filme se baseia nessas frases e isso o torna ótimo.

Então temos os disfarces. Além do humor e das tiradas o personagem, Fletch, que é um jornalista, vive se disfarçando para descobrir um furo de reportagem, só que os disfarces por mais elaborados que sejam, são muito cômicos. Temos um fiscal que teve o nariz quebrado, um hippie que anda de patins na praia, médicos e pacientes, tudo do jeito mais engraçado possível. Além disso, Fletch nunca parece ter noção de como é ficar disfarçado e sempre se atrapalha ao conversar ou até se apresentar para as pessoas (como na vez que, vestido como médico, ele diz três nomes diferentes e sempre tentando parecer Judeu).

Por fim, o filme apresenta dois arcos de história, ambos são importante o suficiente para mantê-los na narrativa mas nunca para sobrepor um ao outro ou ao personagem, que é o que carrega a história. Ambos esses arcos também são bem estruturados, e até certo ponto eles se cruzam para gerar mais suspense. Por fim, Fletch é um filme que você vê e revê dezenas de vezes e cada vez percebe que o personagem é uma criação quase perfeita, e que só não é perfeita pois não poderia existir.

By Pato

Ps: Minha cena favorita no filme é quando Fletch tem que investigar um médico e para isso pede um check up falso, ganhando então um inesperado exame de próstata. Sua reação é hilária. (quer ver? Entre aqui, ou melhor ainda, aqui se você realmente quiser spoilers)

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05 março 2008

 

Mandando bala - Michael Davis





Tex Avery. Se esse é um nome que se não significa nada para você, coloque-o no Google agora e volte daqui a pouco. Eu espero.

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Pronto? Ótimo, esse desenhista de mão cheia criou várias seqüências que de tão boas foram copiadas a exaustão por todos os desenhos animados. A mais celebre realização dele foi a malandragem do Pernalonga e todas aquelas perseguições malucas de todos os personagens da Warner.

Mas o que isso tem a ver com Mandando Bala? Tudo! Esse filme é exatamente uma grande e real homenagem ao mundo da Warner (que acredito ser intencional) e de seus desenhos. Isso faz com que o filme não possa ser levado a sério nem por um segundo, e ele deixa isso bem claro logo na primeira cena quando a cara de mau de Clive Owen é subitamente quebrada por uma grande mordida que ele dá em uma cenoura (para a referência ser mais clara só comendo em mordidas rápidas e pequenas que nem o Pernalonga). Daí em diante o filme escancara em duas vertentes, o humor e a violência e para quem acha que isso não combina é só lembrar que além do Pernalonga muitos desenhos da década de 60 usavam a violência de seus personagens como forma de humor (Tom & Jerry, Pica Pau etc.). Admito que o humor e a violência em pessoas pode ser um pouco demais para alguns, mas se você não se importar com o sangue (que vai ser muito) você pode se divertir bastante.

As atuações se dividem em duas partes: as canastronas e as “eu estou me divertindo muito”. Entre as canastronas estão as de Mônica Belucci como uma prostituta e a de Stephen McHattie como o chefão de uma empresa de armas, ambos os atores não entenderam o espírito do filme e ficaram achando que dali ia sair uma mensagem de paz e esperança ao mundo. Agora, os que estavam se divertindo a beça, com certeza, eram Paul Giamatti e Clive Owen. Este último, com aquele jeito sério de quem não está pra brincadeiras, deixou de lado o pudor e fingiu que seu personagem podia de alguma forma ser real. Isso sem esquecer de que não era e nem tinha como ser real uma figura como aquela. O resultado é um cara que se irrita com as pessoas e as coisas que elas fazem, mas sempre arranja um jeito de de puni-las da pior forma possível. Ele faz isso muito bem, sempre começando com a frase “Sabe o que eu odeio?” e terminando causando muita destruição. Paul Giamatti por outro lado está perfeito como um vilão pequeno que tem tendências megalomaníacas e que mata e destrói pela diversão de destruir. Por isso, que essa dupla de antagonistas se tornam o Pernalonga e o Hortelino Troca-Letras reais, que ficam correndo um atrás do outro em situações exageradas e mantem todo o ritmo do filme.

Com cenas marcantes e divertidíssimas (o final da perseguição de pára-quedas é hilário) o filme se sustenta bem, mas erra e quebra totalmente o clima ao mostrar uma política anti-armas e dispará-las como louco em todas as cenas.

Vai entender o que se passa na cabeça do diretor.

By Pato

PS: A cenoura possui mil e uma utilidades, mas com certeza a melhor delas é o bem pra vista que ela faz, pois o Sr. Smith sempre acerta os vilões e ninguém nunca acerta ele, só quando o roteiro pede. Alguém consegue dizer: Hollywood?!


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Meu nome não é Johnny - Mauro Lima





“Meu nome não é Johnny, meu nome é João. Não sou bandido, não sou nenhum Pablo Escobar, não tenho quadrilha, não tenho fortaleza, não tenho dinheiro na Suíça. Se eu fosse tão poderoso assim, minha família não ia estar vendendo o único imóvel para pagar a minha defesa. Eu usava droga, vendia, ia usando, ia vendendo...”
Assim João Guilherme assume que era dono dos 5,7Kg de cocaína que foram encontrados no apartamento no momento de sua prisão e tenta derrubar o argumento da promotoria de formação de quadrilha.
Eu estraguei seu filme contando isso? Não. O mais fantástico na história de João Estrella não é de onde ele saiu e onde foi parar, mas a forma fantástica que tudo aconteceu. O final do trás quase um road movie, mas a viagem fica mesmo na cabeça do personagem.
João Gulherme é filho único de um casal de classe média da zona sul do Rio de Janeiro. Era adolescente nos anos 70 quanto sua mãe saiu de casa e ele continuou morando com o pai. Sua vida se tornou uma festa eterna, cheia de bebidas, drogas e música alta. Comprando drogas para abastecer uma dessas festas e sem dinheiro pra pagar, João decide que o melhor a se fazer é vender o produto. Todo mundo sabe o que acontece com quem não paga. E nesse momento seu traficante, o Tainha, pergunta quanto ele vai querer na próxima e o comunica que ele agora está do outro lado do balcão. Começa sua carreira estelar de traficante, que vai abastecer as mais seletas rodas do Rio de janeiro no começo dos anos 90.

Antes de tudo, João era um usuário. E antes de ser um usuário, João era um menino. Um menino que já tinha 29 anos quando começou a vender drogas. Já deveria saber o que era certo e errado, mas mesmo anos depois, já preso, ainda não sabia.
Meu nome não é Johnny é um filme divertido. É reflexivo, mas é divertido. Selton Mello esbanja talento e nos tras esse João carismático, engraçado e energético. Ele nos leva de um jovem João bastante vazio para um homem ciente de tudo que perdeu e ganhou em sua jornada. Vai transformando João em um ser complexo e, acima de tudo, humano. João não é um herói, mas também não pe um bandido.
Cassia Kiss está ótima como a juiza do caso e sua participação levanta o nível das atuações, que são meio fraquinhas na maioria do tempo, principalmente na adolescência de João. Sorte que passa rápido. Mesmo a cara enjoada de Cleo Pires fica aceitável na tela, mas isso não nos faz gostar mais dela.
Um destaque para as cenas na cadeia com um ótimo Luiz Miranda enfrentando os africanos e João como intérprete. Impagável. Também a muito comentadas as cenas em Veneza. É um humor diferente daquele que se vê normalmente num filme nacional. É um humor triste, real, de quem ri porque não quer chorar.
O filme termina de forma emocionante, com Selton Melo admirando o mar por horas e nos passando a já batida mensagem de que devemos valorizar as coisas simples enquanto as temos e que ser traficante de drogas não vale a pena. A mensagem é essa, mas contemplar toda a complexidade do momento foi algo muito difícil e o diretor Mauro Lima fez de uma forma muito real e bonita.




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Onde os fracos não têm vez - Ethan Coen & Joel Coen





Na primeira cena em que vemos Javier Bardem interpretando Anton Chigurh o vemos como um sujeito calmo e centrado, com um cabelo esquisito e que só sabemos que é assassino pois somos bombardeados com informações sobre o filme em todos os lugares (principalmente os oscarizados). Portanto, ficamos realmente assustados quando a feição dele muda completamente 5 minutos depois e percebemos toda a loucura no olhar daquele homem que vai passar todo o resto da narrativa mostrando por que ele é o homem mais temido daqueles que o conhecem.

Onde os fracos não têm vez é um filme extremamente pesado, e digo isso pois não há uma pessoa que saia do cinema sem pensar no que nos tornamos como sociedade. Pense só: o único ato de bondade praticado por Llewelyn Moss (Josh Brolin) é exatamente o que o leva, e a todos os outros, a atos de violência e desonestidade contínuos, sendo que a única exceção é o xerife Ed Tom Bell (Tommy Lee Jones), o personagem mais velho e com uma percepção de que o mundo mudou ao redor dele - mas que não necessariamente ele terá que mudar por conta disso. Por essa razão o título original em inglês, e da tradução literal do livro em português, é a mais honesta, Onde os velhos não têm vez, já que como o mundo mudou e Ed, por ser velho e ter valores mais antigos, é o único que nunca conseguirá o que quer e sempre ficará a mercê dos homens sem escrúpulos com quem tem que lidar diariamente.

Isso torna tudo mais interessante, pois como poderá um homem, com todos os seus valores bem firmados e com escrúpulos, lidar com um homem sem escrúpulos e que tem como valores aquilo que o torna mais mortal: a sua própria sobrevivência e o seu trabalho como assassino. Isso fica bem claro quando um personagem diz ao outro que Anton nunca poderá ser detido, já que ele segue seus valores a risca e nunca deixa um caso pendente ou uma ponta solta. Além disso, Anton é uma pessoa descontrolada que mata ou deixa viver pelo simples prazer de poder fazer isso com as pessoas. Assim, quando ele é confrontado por alguém que não vai seguir as suas regras e nem se submeter aos valores, ele sai de cena transtornado e Javier mostra isso muito bem.

Com uma fotografia que mostra a secura da vida comparando-a com o deserto americano, o filme é excelente em todos os aspectos e com certeza vai deixar marcas na maneira de pensar de todos, mesmo que no final fique aquele gosto amargo na boca.

By Pato

PS: o Monologo final de Tommy Lee Jones é perfeito e o corte seco do fim do filme deixa tudo mais preparado para que seu cérebro possa se acostumar com a idéia de voltar a realidade e pensar sobre o filme.

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Cloverfiled - Matt Reeves




Até pouco tempo atrás, você podia achar na Internet, e acho que pode até hoje, filmes de montanha russa em primeira pessoa, acho que no Youtube deve ter até hoje e alguns simuladores de parques foram criados com essa idéia. Era um conceito interessante, conheça uma montanha russa que você teria muita dificuldade de visitar sem sair de casa ou de sua cidade. O problema é que na verdade era muito sem emoção, não tinha graça nenhuma e ninguém queria não sentir a emoção de andar na montanha russa.

Um pouco antes, o cinema tinha nos apresentado um filme que, devido a um Marketing de Guerrilha e propaganda boca-a-boca, ficou muito famoso: a Bruxa de Blair. Usando também o conceito em primeira pessoa o filme apresentava a história de três pessoas que se perdiam em uma floresta e tinham aparecido mortas um tempo depois. Usando uma câmera de mão, esses três jovens se alternavam na apresentação de sua “jornada”.

Nisso chegamos a Cloverfiled, um filme que apresenta o mesmo conceito citado acima mas com uma diferença: se você estiver assistindo em uma sala de cinema (por enquanto é a única opção), você terá toda a emoção que um filme de montanha russa deveria ter e muito mais ação, suspense e, principalmente, uma trama muito melhor que a Bruxa de Blair.

O filme começa com um grupo de amigos se reunindo em um apartamento em NY para celebrar a despedida de um deles que vai para o Japão. O mais interessante é que a câmera digital usada no filme é tratada como uma câmera mesmo. Então, às vezes, os personagens param de gravar por um motivo e quando voltam eles não voltam no mesmo ponto da fita e estão pouco pra frente de onde tinham parado a gravação, nesse ponto o filme mostra outra gravação que existia antes na fita, o que revela imagens antigas que aprofundam certos relacionamentos. A festa também serve para apresentar os personagens, e para apresentar o espectador ao “cameraman” que ficará escondido atrás da câmera boa parte do filme.

Uma das coisas que mais me irritou em A Bruxa de Blair era o fato de que o filme não tinha ação e a câmera tremia demais, causando um grave desconforto. Quando a ação começa em Cloverfield ela não para mais e em uma sala de cinema você se sente imerso nela. Tudo é bem feito e coreografado, os tiros as corridas, o monstro, as destruições, tudo é bem amarrado e faz você prezar pela vida dos personagens. Só que tudo isso acontece com uma imagem muito mais fluida e nítida que a de aBdB, acredito que isso se deva ao fato do filme se passar a noite (o que ganha pontos no suspense também). Mas, por fim, ele causa muito menos desconforto do que eu esperava.

Mostrando apenas pedaços de informação sobre o monstro e mostrando ele aos poucos, nós sabemos aquilo que os personagens sabem, e com isso nunca sabemos o que esperar. É claro que é Hollywood e sabemos que sempre podemos contar com sustos e suspense, mas a escassez de informação é vital para que, como os personagens, nos sintamos oprimidos e sem saber para onde fugir.

Com poucas mortes e com muitas delas fora da câmera (afinal quem gostaria de ficar olhando para as mortes enquanto filma) o filme ainda consegue ser muito original até na hora de deixar o monstro saciar a sua fome e apresenta alguns momentos muito inspirados de erradicação da raça humana (um jeito politicamente correto de dizer mortes, mortes e mais mortes), o que faz com que você diga “Nossa!” muitas e muitas vezes (sendo que eu, como muitas pessoas, usei muito mais palavras de baixo calão ao invés de Nossa!).

Sendo incrivelmente divertido, misterioso (como não poderia deixar de ser já que o produtor do Lost é produtor do filme) e cheio de boas atuações de atores desconhecidos, Cloverfield é uma ótima opção tanto para quem gosta de filmes como para quem só quer se distrair.

By Pato

Ps: Quem consegue perceber o que acontece com uma certa personagem quando ela morre atrás de uma tela de plástico? Uma dica, momentos antes o filme mostra a resposta.

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Mais estranho que a ficção - Marc Forster



“Mal sabia ele que esse simples ato aparentemente inócuo iria resultar na sua morte eminente”. Pergunta: Hoje em dia, quem escreve desse jeito? Escritores literários com certeza, mas, mesmo assim, não todos. E roteiristas? Como será que um roteiro de um grande e tematicamente interessante filme chega às mãos dos autores? Será que possui frases assim? Na Internet hoje se acha de tudo, inclusive roteiros, então minhas perguntas podem ser facilmente respondidas, mas nem faço questão disso, não quero saber como o roteiro estava escrito, isso não me interessa, me interessa o resultado final, e é isso que interessa à grande maioria das pessoas.

Charles Kaufman escreveu um roteiro que gerou o ótimo, mesmo que incompreendido, “Adaptação”. Nesse filme ele mostra o processo de criação de um roteiro adaptado de um livro inadaptável e mostra o quanto é difícil trazer boas falas, bom conceitos e boas cenas. Charles Kaufman é um brilhante roteirista e suas falas são incrivelmente escritas, mas todas as comparações que se fazem dele e de Zach Helm, o autor desse roteiro, são injustas e o motivo é simples. Imagine você escrevendo um roteiro que diz que no filme haverá um livro que terá a melhor história dos últimos tempos. Imagine que você tem duas opções, ou você não mostra o livro e seus textos e deixa as pessoas imaginarem sobre o que ele fala, ou você REALMENTE ESCREVE UM LIVRO INCRÍVEL NO MEIO DA SUA NARRATIVA. Nesse filme nós encontramos a segunda opção. É incrível o quanto a obra que é narrada sobre a vida de Harold Crick (Will Farrell) pela autora Kay Eiffel (Emma Thompson) é inteligente e interessante. Ela é constantemente estimulante. Harold Crick é um sujeito que teria tudo para ser o mais insuportável dos personagens, ele é dono de uma vida enfadonha e sem graça, mas a partir do momento que o livro conheça a ser narrado percebemos que mesmo a sua rotina é interessante e o livro a faz ser assim. Ela esmiúça o personagem de uma forma tão cativante que percebemos que qualquer mudança que ocorra com ele será forte e a forma a qual a escritora coloca essas mudanças no caminho tornam a vida de Harold Nelson mais interessante.

Só que o filme não é sobre o livro, é sobre uma vida, a vida de um homem que começa a ter todos os seus passos, todas as suas ações cotidianas, tudo o que faz, narrado e influenciado pela narração. Começamos a perceber como aquela situação é confusa e Will Farrel trabalha maravilhosamente bem isso. Quando, em um determinado momento o narrador diz que Harold Crick vai morrer, percebemos que o mundo desmorona embaixo dele, nos sentimos na pele dele, percebemos que a pior coisa é saber que algo muito ruim está para acontecer e não poder mudar isso. Nesse ponto já estamos totalmente complacentes com as decisões futuras de Harold, tudo o que ele decidir será natural devido a sua condição que é não é nada normal e, considerando o fato que isso ocorre logo nos primeiros 20 minutos da projeção, podemos perceber o quanto é espetacular e envolvente o roteiro.

Depois disso todas as pessoas que se dispõe a ajudá-lo acabam se incorporando e mesclando com a narrativa e sua vida, a busca pela ajuda dessas pessoas se torna fluida e óbvia, o tipo de coisa que por mais absurda que seja, uma situação adversa como a dele pede. E o fato das pessoas ajudarem a um sujeito que tem uma condição que não é fácil de se entender ou acreditar só se torna crível pelas magníficas atuações de Dustin Hoffman ou de Emma Thompson.

Por fim, mas não menos importante o roteiro nos apresenta um romance na vida do personagem, e ele até brinca com a possibilidade de Harold e Ana Pascal

(Maggie Gyllenhaal) se odiarem, mas o roteirista descarta essa possibilidade logo de cara, tanto pelo jeito de Harold Crick quanto pelo fato de que ele não quer ficar sozinho no final de sua vida.

Mais estranho que a ficção é um filme magnífico, e tem um final que pode tanto ser adorado quanto odiado, fica a critério do espectador. Tanto é verdade que me eximo de comentá-lo aqui. Mas se alguém quiser comentar, fique a vontade.

By Pato

PS: Sempre, sempre rio muito na parte em que Harold virá para Ana e diz “I brought you flours” (Eu trouxe farinhas) já que “Flours” (farinhas) tem o mesmo som em inglês de “Flowers” (Flores), fazendo com que esse se torne o melhor exemplo de trocadilho em inglês que eu já vi na vida.

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