29 fevereiro 2008
A Ultima Cartada - Joe Carnahan
Muito se fala da violência no cinema, dos filmes de Tarantino, Eli Roth e milhões de novatos que querem copiar aqueles que já estão no topo. A verdade é que violência se torna banal a partir do momento que todos somos violentos. Quando alguém fala que a violência do cinema é exagerada eu sempre me lembro de uma fala do filme Adaptação, quando Charlie Kaufman vai à um seminário para produzir roteiros e pergunta ao palestrante o que ele acha de um roteiro em que praticamente nada de interessante acontece, mais ou menos como a vida, e o palestrante responde: “Nothing happens in the world? Are you out of your fucking mind? People are murdered every day. There's genocide, war, corruption. Every fucking day, somewhere in the world, somebody sacrifices his life to save someone else. Every fucking day, someone, somewhere makes a conscious decision to destroy someone else. People find love, people lose it. For Christ's sake, a child watches her mother beaten to death on the steps of a church. Someone goes hungry. Somebody else betrays his best friend for a woman. If you can't find that stuff in life, then you, my friend, don't know crap about life. And why the FUCK are you wasting my two precious hours with your movie? I don't have any use for it. I don't have any bloody use for it.”. Tenho certeza que qualquer que fosse a intenção de Charlie Kaufman nesse momento do filme a intenção não era mostrar por que a violência é banalizada no cinema, mas sim o que o mundo escolhe banalizar e como (um dia escreverei sobre esse filme). Honestamente preciso concordar em certos pontos, não temos para onde olhar sem sermos confrontados periodicamente com violência, seja no trabalho, na janela do ônibus, em casa etc. É nesse sentido, esse sistema em que vivemos, essa indiferença com a violência, que tornam “A Ultima Cartada”, um filme bom bom.
Primeiramente tenho que dizer, que ele é um filme bem trabalhado, com um câmera fluida, que sempre mostra tudo sem nunca apelar para montagens excessivamente rápidas. Todos os atores, sem exceção (e nisso incluo Ben Affleck), estão vivendo pessoas, não personagens, t
odos eles sabem o que querem, sabem o que fazer, sabem se expressar da sua maneira, e a maneira que um fala do outro é tão real que às vezes eles chegam a errar sobre como a outra pessoa age (o que é muito natural, já que a maioria não se conhece). Considerando que o elenco só não é maior que o numero de extras por pouco, é difícil imaginar como não perder o rumo e focar demais em um personagem ou deixar todos de lado, e nisso o filme não se perde, sempre sabemos quem é quem, não temos tempo de decorar nomes, por isso as pessoas são referenciadas poucas vezes, e nessas poucas vezes um flash de imagem aparece na tela para evitar confusão.
A história não é das melhores. A vontade do diretor/roteirista Joe Carnahan em construir um desfecho surpreendente fez com que no final a trama se tornasse mais fraco do que o resto da projeção. Mas mesmo assim, a história do filme é mais do que o suficiente para prender sua atenção. Ela é simples e vai direto ao assunto: inúmeros assassinos (Nestor Carbonell, Alicia Keys, Ben Affleck, Chris Pine etc.) querem matar uma testemunha (Buddy Aces - Jeremy Piven) que se escondeu em uma cobertura de um hotel enquanto o FBI quer esse cara como testemunha e não pode deixar ele morrer. A trama não sai muito disso. Ao invés de fazer como Guy Ritchie fazia e focar nas situações que os personagens geram, o diretor resolve mudar o esquema e trabalhar com as situações que mudam os personagens
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Entendendo isso sobre o filme que eu volto a falar da violência. Não se engane, esse filme é extremamente violento, com muito sangue, tiros e mortes (afinal é um filme sobre assassinos profissionais); mas a diferença principal nesse filme é como cada personagem lida com as mortes, com o fato de ter que matar ou quem vai ser morto. Em um certo momento do filme, um dos assassinos mata um segurança do hotel, ele enfia uma espécie de lança no peito do segurança e
explica que a morte dele vai ser rápida e indolor, ainda no final, com muita compaixão ele pede para que o segurança feche os olhos, afinal ele não iria querer ser a ultima imagem que o segurança ia ver. Ele ainda termina dizendo: “Essa imagem poderia até te barrar no céu”. Consciente de sua vida e do que ele faz, e o personagem nesse momento passa uma imagem de calma mas ao mesmo tempo de pena por ter que matar aquela pessoa.
Toda gota de sangue que cai tem uma repercussão, seja no filme ou no mundo, e o filme parece compreender isso de uma forma diferente do cinema atual, tanto que depois da reviravolta no final do filme, aquela que eu disse que enfraquece a trama, um dos personagens se dá conta de tudo o que ocorreu, de todo o sangue derramado, e toma uma decisão heróica, drástica e trágica, mas uma decisão honesta, condizente com seu personagem, mostrando mais uma vez que a força
de uma história está em quem conta e de sobre quem ela é.
By Pato
Ps: O nome em inglês do filme (Smokin’ Aces) é um trocadilho, significa na tradução normal “ases fumegantes” o que pode tanto remeter as cartas do baralho (que o Aces do filme usa o tempo todo), como pode significar os assassinos de elite (que são os “Aces”, ou seja os melhores). Só que esse título quer dizer também “Matando o Aces” já que Smoke é gíria bandida pra matar.
TRAILER
Marcadores: Ação, Andy Garcia, Ben Affleck, Chris Pine, Joe Carnahan, Matthew Fox, Nestor Carbonell, Ray Liotta, Ryan Reynolds


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