05 março 2008
Mais estranho que a ficção - Marc Forster

“Mal sabia ele que esse simples ato aparentemente inócuo iria resultar na sua morte eminente”. Pergunta: Hoje em dia, quem escreve desse jeito? Escritores literários com certeza, mas, mesmo assim, não todos. E roteiristas? Como será que um roteiro de um grande e tematicamente interessante filme chega às mãos dos autores? Será que possui frases assim? Na Internet hoje se acha de tudo, inclusive roteiros, então minhas perguntas podem ser facilmente respondidas, mas nem faço questão disso, não quero saber como o roteiro estava escrito, isso não me interessa, me interessa o resultado final, e é isso que interessa à grande maioria das pessoas.
Charles Kaufman escreveu um roteiro que gerou o ótimo, mesmo que incompreendido, “Adaptação”. Nesse filme ele mostra o processo de criação de um roteiro adaptado de um livro inadaptável e mostra o quanto é difícil trazer boas falas, bom conceitos e boas cenas. Charles Kaufman é um brilhante roteirista e suas falas são incrivelmente escritas, mas todas as comparações que se fazem dele e de Zach Helm, o autor desse roteiro, são injustas e o motivo é simples. Imagine você escrevendo um roteiro que diz que no filme haverá um livro que terá a melhor história dos últimos tempos. Imagine que você tem duas opções, ou você não mostra o livro e seus textos e deixa as pessoas imaginarem sobre o que ele fala, ou você REALMENTE ESCREVE UM LIVRO INCRÍVEL NO MEIO DA SUA NARRATIVA.
Nesse filme nós encontramos a segunda opção. É incrível o quanto a obra que é narrada sobre a vida de Harold Crick (Will Farrell) pela autora Kay Eiffel (Emma Thompson) é inteligente e interessante. Ela é constantemente estimulante. Harold Crick é um sujeito que teria tudo para ser o mais insuportável dos personagens, ele é dono de uma vida enfadonha e sem graça, mas a partir do momento que o livro conheça a ser narrado percebemos que mesmo a sua rotina é interessante e o livro a faz ser assim. Ela esmiúça o personagem de uma forma tão cativante que percebemos que qualquer mudança que ocorra com ele será forte e a forma a qual a escritora coloca essas mudanças no caminho tornam a vida de Harold Nelson mais interessante.
Só que o filme não é sobre o livro, é sobre uma vida, a vida de um homem que começa a ter todos os seus passos, todas as suas ações cotidianas, tudo o que faz, narrado e influenciado pela narração. Começamos a perceber como aquela situação é confusa e Will Farrel trabalha maravilhosamente bem isso.
Quando, em um determinado momento o narrador diz que Harold Crick vai morrer, percebemos que o mundo desmorona embaixo dele, nos sentimos na pele dele, percebemos que a pior coisa é saber que algo muito ruim está para acontecer e não poder mudar isso. Nesse ponto já estamos totalmente complacentes com as decisões futuras de Harold, tudo o que ele decidir será natural devido a sua condição que é não é nada normal e, considerando o fato que isso ocorre logo nos primeiros 20 minutos da projeção, podemos perceber o quanto é espetacular e envolvente o roteiro.
Depois disso todas as pessoas que se dispõe a ajudá-lo acabam se incorporando e mesclando com a narrativa e sua vida, a busca pela ajuda dessas pessoas se torna fluida e óbvia, o tipo de coisa que por mais absurda que seja, uma situação adversa como a dele pede. E o fato das pessoas ajudarem a um sujeito que tem uma condição que não é fácil de se entender ou acreditar só se torna crível pelas magníficas atuações de Dustin Hoffman ou de Emma Thompson.
Por fim, mas não menos importante o roteiro nos apresenta um romance na vida do personagem, e ele até brinca com a possibilidade de Harold e Ana Pascal
(Maggie Gyllenhaal) se odiarem, mas o roteirista descarta essa possibilidade logo de cara, tanto pelo jeito de Harold Crick quanto pelo fato de que ele não quer ficar sozinho no final de sua vida.
Mais estranho que a ficção é um filme magnífico, e tem um final que pode tanto ser adorado quanto odiado, fica a critério do espectador. Tanto é verdade que me eximo de comentá-lo aqui. Mas se alguém quiser comentar, fique a vontade.
By Pato
PS: Sempre, sempre rio muito na parte em que Harold virá para Ana e diz “I brought you flours” (Eu trouxe farinhas) já que “Flours” (farinhas) tem o mesmo som em inglês de “Flowers” (Flores), fazendo com que esse se torne o melhor exemplo de trocadilho em inglês que eu já vi na vida.
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Marcadores: Comédia, Drama, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Maggie Gyllenhaal, Marc Forster, Queen Latifah, Will Ferrel


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