01 abril 2009

 

Watchmen - Zack Snyder





“O mundo acaba com você”, essa frase de sentido dúbio está na minha cabeça faz muito tempo, mas ganhou mais força depois de assistir Watchmen. Desde já, querio deixar claro que vou tentar ser o mais Spoiler free possível. Mesmo que no caso do Watchmen estamos lidando com o impossível.

“O mundo acaba com você”, analisando um dos sentidos dessa frase percebi que o mundo é apenas a nossa perspectiva, é apenas a visão que temos dele, é apenas aquilo que vemos ao abrir os olhos logo após nascermos até o momento que fechamos os olhos quando morremos. Essa divagação filosófica tem um motivo, Watchmen é uma representação fantástica dessa filosofia.

Nesse ponto, faço questão de deixar claro uma coisa, apesar de não ser essencial que se leia os quadrinhos antes de ver o filme, é muito importante para que se saiba tudo o que acontece ao fundo da narrativa, por isso para que se compreenda melhor as motivações de todos os personagens; portanto pretendo aqui contar o filme como se o leitor nunca tivesse lido as revistas e, sendo assim, precise de maiores explicações.

Quando o filme começa vemos o Comediante (Jeffrey Dean Morgan) sentado na frente à TV e mudando de canais aleatoriamente, uma cena que começa a demonstrar duas coisas: 1) Não estamos no presente (pelo tipo de aparelho e a programação) e 2) as coisas não são como as conhecemos pelas aulas de história. Esse pequeno pedaço já encara um bom desafio, e cumpre com bastante eficiência as necessidades do roteiro em fazer o espectador se localizar na história. Logo após essa cena surge uma cena maravilhosa onde um sujeito misterioso ataca o comediante e o defenestra (o joga pela janela – sempre quis usar essa palavra). Criando um impacto no espectador a cena termina com o inicio dos créditos, que embarcado ao som de The times they are a-changin’ do Bob Dylan (uma escolha que quase me fez chorar de alegria) mostra a ascensão e queda dos heróis mascarados, nesse mundo alternativo.


Seguindo uma narrativa confusa para aqueles que não leram os quadrinhos (já que parte da história teve que ser sacrificada ou modificada), Watchmen não é um filme de uma visita só. O filme realmente amarra todas as pontas soltas, mas exige um esforço normalmente reservado para filmes menos comerciais ou, como já dito, outras visitas (sendo que todas irão valer a pena). Não estou querendo banalizar os filmes, mas temos que entender que o casal de namorado que vai no filme por causa do marketing feroz, em um sábado a tarde, pra relaxar e trocar uns amassos não está muito preocupado com roteiros intrincados.

O enredo acompanha a conseqüência e os motivos por trás da morte do comediante. Como todos os heróis foram proibidos por lei e só podem trabalhar para o governo, a morte do mais antigo herói ainda na ativa desperta suspeitas de Rorschach (Jackie Earle Haley) já que ninguém conhece suas identidades. Procurando um a um todos os seus antigos colegas, Rorschach descobre uma trama que tem como objetivo aparente a destruição do planeta.

Uma premissa simples que entre viagens a marte e diversos Flashbacks consegue demonstrar ao mesmo tempo a simplicidade e a enorme complexidade do ser humano. Isso fica obvio quando vemos Dr. Manhattan (Billy Crudup), o único super-herói de todos (por ser o único com poderes reais), enfrentando o dilema de não ser mais considerado humano e, portanto, se tornando extremamente solitário.

Saindo um pouco do enredo para não criar spoilers temos a belíssima criação desse mundo imaginário que se forma pela presença dos heróis. Zack Snyder acertou no uso das cores e das formas, tanto nos uniformes como nos ambientes, que remetem a realidade da década de 80, algo criado por Dave Gibbons na sua arte e recriado para o filme da mesma forma que nos quadrinhos. Isso dá um tom ameaçador ao mundo que se formou, mas ao mesmo tempo inspira uma certa segurança nos ambientes internos. Todo esse trabalho consegue ainda ajudar a contar a história e deixar bem claro que o que vemos não é o nosso mundo, os zepelins que passam pela cidade e muito da arquitetura capturam a essência de como o mundo com o Dr. Manhattan seria diferente (algo mais explícito nos quadrinhos).

As atuações estão e são magníficas. As melhores são sem duvida a de Jackie Earle Haley como Rorschach e Jeffrey Dean Morgan como o Comediante. O primeiro captura a essência sociopata do herói puritano que vê o mundo com um asco tão grande que não se importa mais em matar para livrar a sociedade de seus desafetos. O Comediante também vê o mundo com nojo, mas a sua natureza bélica e sua aliança com o governo lhe dão forças para olhar de cima tudo que ele odeia na sociedade. Por isso também o Comediante é o personagem que mais se transforma ao longo do filme, saindo de um porco narcisista e se tornando um homem de moral falha e caráter dúbio que percebe o engodo em que vive e o que fez de errado.

Billy Crudup como Manhattan está muito bom, passando uma atitude serena em todas as cenas e a força do personagem em pouquíssimos pontos, conseguimos perceber através da atuação que o Dr. Manhattan é um homem que apesar de ser o mais pacífico possível entende a natureza destrutiva do mundo que o cerca e sabe se defender quando se sente oprimido. Ozymandias (Matthew Goode), que era o meu maior medo (ele tinha cara de criança nas fotos liberadas ao longo da produção do filme), se torna magistral na forma como conscientemente ele mostra seu caráter e suas idéias diferentes ao mundo, além de mostrar carisma e afeição à humanidade ao ter que cometer sacrifícios para que as coisas funcionem. Patrick Wilson como o Coruja II está bem, poderia estar melhor por ser um dos personagens principais, mas não faz feio. Carla Gugino, uma atriz que eu adoro, faz muito bem com o pouco tempo de tela que ela tem interpretando a Espectral original, mas os méritos vão para a Espectral II (Malin Akerman) que além de ser muito bonita faz muito bem o papel de alguém que involuntariamente seguiu os passos da mãe e não sabe como seguir a própria vida.

Por fim, as musicas. Poderia passar dias discutindo todas as musicas do filme e seus motivos. Sei que algumas pessoas reclamaram das escolhas feitas por Zack Snyder, mas eu acredito que, tirando um erro ou outro, os acertos foram bem maiores que os erros. Hallellujah e 99 Luft Ballons estão totalmente fora de compasso, mas só essas são os exemplos.  Já falei da alegria de ouvir The times they are A-changin’, mas não posso esquecer da musica instrumental do filme Koyaanisqatsi usada na seqüência de Marte (que me deixou arrepiado), de All Along the Watchtower tocada por Hendrix (mas novamente de composição do mestre Bob Dylan) e da solenemente ignorada The Beginning is the End is the Beginning do Smashing Punkings que é tocada no Trailer desse e ficou perfeita.

Tirando uns pequenos pecadilhos que comete com a própria natureza não heróica dos nossos heróis (alguns golpes exagerados) e com o fato de ser um filme violento (o que pode desestimular uma segunda visita para algus públicos) Watchmen é um filme que vale a pena pela poesia e mensagem que tenta passar, sendo que a mensagem não de ser confundida com uma mensagem anti-belica (ainda que essa exista) mas sim com uma mensagem sobre a condição na qual a humanidade se encontra e o que estamos fazendo uns contra os outros, com eu disse "O mundo acaba com você".

By Pato

PS: Ouvi muito sobre o fato do Comediante estar logo nos créditos iniciais atirando em Kennedy, algo que apesar de não estar no livro, na minha opinião, somente mostra o lado bélico do personagem. As pessoas que disseram não compreender por que colocaram o Comediante fazendo isso não procuram entender o próprio personagem e todas as suas motivações.

PPS: Desculpem o longo intervalo

TRAILER

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