23 agosto 2010
Mulan - Tony Bancroft e Barry Cook (1998)
Desonra! É isso que acontece a esse blog! Em pleno mês de agosto de um ano cheio de estréias fantásticas (Hello, Toy Story 3, A origem!) nenhuma resenha com a data de 2010. Desonra.Para estrear nosso arquivo deste ano, escolhi um filme que fala muito sobre honra, dignidade e autoconhecimento. Mulan, de todos os filmes da Disney, é o que melhor dialóga com essas questões e não ignora suas raízes.
Fa Mulan é uma jovem que não se ajusta bem no mundo que vive (a China de 495 d.C.). Apesar disso, ela ama sua família o suficiente para ir contra seus desejos e fazer o melhor que pode para se tornar "a perfeita esposa e perfeita filha". Mas infelizmente, como na vida real, só vontade não é suficiente e Mulan percebe que não tem vocação para ser uma esposa recatada, pontual e equilibrada e que, provavelmente, não conseguirá elevar ou mesmo manter a honra de sua família. O filme deixa claro que isso é muito importante e que a desonra é pior que a morte.
Quando os hunos invadem a China, o Imperador (na maior representação da sabedoria chinesa) convoca um homem de cada família para defender o país. Quando o pai de Mulan, veterano de guerra, idoso e doente, aceita sua convocação mesmo sabendo que isso significa sua morte, Mulan o confronta e uma das declarações mais dolorosas vem do brado de Fa Zhou que diz para a filha "Eu conheço o meu lugar. Está na hora de você conhecer o seu". Qual é o lugar de Mulan afinal? Quando ela decide que não é em casa esperando uma carta avisando sobre o falecimento do pai, ela parte para a guerra em seu lugar.

É muito bonita a cena da decisão de Mulan. Sentada na chuva ao lado do Grande Dragão de Pedra, como que buscando uma luz e proteção, ela vê que, apesar de resignada, a mãe não concorda com o marido. E é ai que ela toma coragem, corta o cabelo, rouba a armadura do pai e parte para o que poderia ser a morte certa, pois a revelação de seu segredo receberia tal punição.
Além da viagem de Mulan, temos também a de Mushu. O pequeno dragão foi rebaixado do cargo de gurdião e busca reconquistar o respeito dos ancestrais da família Fa (numa cômica reunião de família sobrenatural). Depois de destruir o Grande Dragão de Pedra, ele decide que o único jeito de reparar seus danos seria fazer da empreitada de Mulan um sucesso.
O que vemos a partir daí é a descoberta dos limites pelos personagens e a discussão de suas motivações. Conforme superam seus obstáculos, Mulan e Mushu não percebem que estão indo longe demais em sua farsa e que o segredo a qualquer momento pode ser revelado e que as consequências podem ser piores que a morte.
Apesar de ter ido muito bem na bilheteria, sei de muita gente que não assistiu, então não vou falar mais sobre o final. Vou dizer que Mulan não é muito diferente de todos os filhos e filhas do mundo que simplesmente não conseguem a aprovação dos pais sendo aquilo que são genuinamente. Como a heroína da Disney, esses jovens buscam a revelação de sua verdadeira imagem para que possam, então, encontrar paz e felicidade.
Sendo uma animação da Disney em sua época de boas produções, Mulan é lindamente colorido e fotografado, com detalhes de tirar o fôlego. As músicas potencializam as emoções e manipulam o expectador com maestria e os números musicais realmente servem para contar a história e não só para não perder a chance de colocar uma musiquinha. Eu comparo o número "Imagem" ao "Ser deste mundo" d'A Pequena Sereia (um dos meus favoritos no mundo). As duas cantam seus desejos de fazerem parte de algo diferente, de outro lugar, num momento muito íntimo. A diferença é que enquanto Ariel buscar encontrar seu lugar em um mundo físico, Mulan quer encontrar seu lugar dentro de si mesma, sua verdadeira imagem.PS: Nem preciso dizer que Mario Jorge, dublador de Mushu, faz mais um trabalho espetacular. Ele é o burrinho do Shrek que, como o dragão, é dublado no original por Eddie Murphy. O contraponto que as gírias e o gingado de Murphy dão à dureza das personagens orientais é muito interessante. Todo o elenco tem momentos cômicos, que casam perfeitamente com as outras emoções que preenchem o filme.
Marcadores: Barry Cook, Disney, Eddie Murphy, George Takei, Ming Na, Pat Morita, Tony Bancroft

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